terça-feira, 30 de junho de 2015

Excessivamente Feliz - 2.ª Parte

A escolha das unidades não foi muito fácil! Só havia um ou outro que sabia o que queria, e esses queriam o mais difícil! Os restantes, estavam à espera que fosse eu a escolher, mas não seria assim. Eu quis que fossem eles a escolher para melhor saborearem as suas escolhas... Era importante!
Depois do almoço, saímos de casa todos juntos e a nossa primeira tarefa era ajudar nos almoços dos utentes. Fomos pelos túneis, juntos até determinada altura e os corações estavam, porque se via nos seus rostos, expectantes! O que lhes esperava? Como seria? Iriam gostar? E se...


Na Casa de Saúde do Telhal vive-se a 100% tudo o que de mais puro existe... Ali tudo é mágico: abraçamos, sorrimos, confortamos, choramos, escutamos, conversamos, rimos, brincamos, alimentamos, amamos e entregamo-nos ao outro em troca daquilo que nos enche verdadeiramente o coração: o amor! Um amor louco, mas puro. Há coisas que são tão grandiosas que são impossíveis de descrever por palavras, simplesmente porque não há palavras que cheguem... Tudo o que eu diga é sempre pouco porque aquela casa, aquelas pessoas, aqueles rostos, aqueles olhares são verdadeiramente apaixonantes! Ali existe, de facto, Deus e pessoas verdadeiramente filhas de Deus!
São pessoas, aparentemente, tão diferentes de nós, mas que nos transmitem e ensinam tanto, mexem com as nossas emoções e capacidades! Ali tudo é puro, sincero, verdadeiro. Ali não há mascaras nem necessidade de serem melhores que ninguém. Ali há apenas PESSOAS que necessitam de ser amadas! E os voluntários (nós!) têm essa missão, têm de ser instrumentos de um amor ímpar. O amor de Jesus! E, connosco, foi assim que aconteceu...


Na unidade onde fiquei (Sto Agostinho), inicialmente só com a B. e o E., as descobertas eram constantes, um mar de coisas por fazer, conhecer, descobrir... O enfermeiro que nos recebeu era uma pessoas 5 estrelas e ajudou bastante na nossa integração. Descobrimos um "pozinho mágico" que misturado com líquidos, os transforma em papas (isto porque alguns utentes não conseguem engolir líquidos!) e tivemos que preparar algumas refeições com o dito pó. Depois fomos dar o almoço aos quartos. Ele disse-nos que preferia que fossem os voluntários a fazer esse "trabalho" para estarmos mais próximos dos utentes! E assim foi... 
Medicação e comida preparada: sopa, verde (pastosa), água e sobremesa... Íamos nós a tentar memorizar pelo corredor. Correu bem melhor do que eu esperava! A dada altura dei por mim a olhar par o senhor CR e a pensar como me posso queixar tanto? E também me deu vontade de cantar... De vez em quando olhava para a janela e pensava no "quão maravilhosa" podia ser a vida dele lá fora... Foi bonito. Terminei a refeição limpando-lhe bem a boca e afagando-lhe as mãos frias e imóveis. Não deu para trocar uma única palavra, não sei se me ouvia, se sabia que eu estava ali, mas ainda assim, despedi-me com um beijo... Aconcheguei-o e segurando as emoções saí do quarto. 
Fui ao encontro deles, que - por ser as suas primeiras vezes - ainda estavam demorados. Fiquei ali com eles, meio parva com o que vi quando entrei no quarto onde eles alimentavam os utentes! Ambos estavam com um cuidado, carinho e olhar que cativava e apaixonava qualquer pessoa... A larga maioria das pessoas "ditas normais" não percebe e não compreende como é fácil deixarmo-nos tocar por alguém que a única forma de interagir connosco é com um sorriso "babado"... Depois fomos ajudar de novo na sala e disponibilizarmo-nos a levá-los a passear, "ao bar" e ao jardim. Levamos 4 senhores em cadeiras de rodas, (pois a I. entretanto juntou-se a nós) e ainda o Sr. R. que podia querer fugir a qualquer momento (medo!). 
Foi uma aventura louca: desorientámo-nos nos túneis, andámos perdidos e... rimos até não puder mais. Os utentes às vezes surpreendiam-nos com algumas palavras, coisas simples mas com muita graça. Esta, foi a segunda vez que chorei a rir naquele dia!!! Só naquele pedacinho de tempo já se sentia a paixão. Havia no ar uma crescente amizade entre nós e os utentes e as coisas fluíam quase naturalmente... Até ajudei um sr. a fumar!!! Em 30 anos de vida, sentia-me a fumar pela primeira vez... Ao voltarmos à unidade, apercebemo-nos havia um pequeno contratempo, o Sr. A. tinha-se urinado (e não só) todo! Levei-o à casa de banho e ajudei-o. Sim fi-lo com a maior das naturalidades!!! Entretanto o E. estava a mudar uma fralda, ao que nós as 3 assistimos do corredor... E também ali no corredor íamos tendo algumas "curtas" conversas com os utentes!


Foi alí que o Sr. Z. nos abordou, cumprimentou e falou para o E.: "Eu sou um cavalheiro, sabia?". E era mesmo, ou melhor, era quando a doença o permitia ser! A I. foi convidada a ir conhecer o seu quarto e nós fomos com ela. Ele não se importou, conversou connosco e ficou feliz, tão feliz que com a sua "Polaroid" nos tirou umas fotos, que depois nos ofereceu... "Que querido!". Um querido, com uma conversa tão querida, tão meiga, tão normal, tão aparentemente lúcida, que até duvidámos da sua "doença". Afinal, era apenas um velhinho querido... Querido e danado, que entretanto me faz um desabafo familiar seguido de um grande convite indecente. Claro que foi a risada total de novo!!! E com esta conversa tão pouco inocente acabamos por ir lanchar e partilhar aventuras... Nessa altura comecei a perceber algo, já estavamos todos "apanhados". Estavamos a ser cativados, a deixarmo-nos tocar, apaixonar... 
Depois, alguns tiveram que se ausentar, para outros deu para verem o jogo de futebol (o que é fixe, pois assim já havia assunto para falar ao jantar com alguns utentes!) e eu aproveitei para dormir uns 40 minutos. O tempo livre também é importante! Ajuda a partilharmos experiencias e a assimilar as coisas com alguma tranquilidade.
Os jantares - pelo menos em Sto Agostinho - foram agitados. O Z. já estava diferente, alterado mesmo! O Sr. N. gritava muito, o Sr. A. estava feliz porque tinha comido "duas. duas vezes", o A. estava com fome (estava sempre!) e a algazarra era total!!! Ajudamos a dar o jantar a muitos utentes alí mesmo no espaço das refeições... E assistiamos as 4 (a C. também foi connosco desta vez!) a toda uma loucura que até aí não tinhamos visto! Um utente veio direito a mim, agarrou-me pelos pulsos e começou a bater-se... tentei ao máximo que não se magoasse. Fiquei calma e no fim (quando conseguiram que me largasse) sorri-lhe. Entretanto o Z. chateou-se, irritou-se, a polaroid caíu ao chão, ele estava chateado, o Sr. N. gritava e a confusão era tanta que quando nos apercebemos o Z. apertava o pescoço ao Sr. N... Que cena!!! Então e o velhinho querido e cavalheiro, que era feito dele???
De seguida ajudamos a levar os utentes para os quartos, não os deitamos mas assistimos de novo a cenas muito "caricatas". Querem rir um pouco? E digo-o sem maldade, porque no momento me ri e vi apenas um homem numa situação muito engraçada. Não vi limitações, doenças, incapacidades... Ví o engraçado da coisa e um homem apenas, que para mim naquele momento já não era um simples borrão, era normal... Porque nós é que eramos diferentes dele!!! E, no fim, achei que era uma graça terminar a noite com aquela visão: imaginem um homem todo nú, deitado ao contrário na cama, de pernas para o ar a tentar literalmente acertar com os pés nos buracos das cuecas. (...) Risos!

Continua...

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