quarta-feira, 1 de julho de 2015

Excessivamente Feliz - 4.ª Parte

O acordar de domingo foi demorado e costou um bocadinho...
Eu levantei-me, bati nas portas dos quartos, esquecí-me da música (bolas!) e fui até à rua, respirar um pouco daquele ar mágico... Era cedo, 8:30! Mas alguns de nós tinhamos prometido ir ajudar nos pequenos almoços. Chegamos tarde, mas sempre a tempo... Alí há sempre tempo para tudo!
Nas unidades tinhamos utentes entusiasmados e felizes porque iam à missa! O Sr. A comeu "duas, duas sopas"... O Sr. Z estava tão mal disposto, chateado e não nos queria perto dele. O Sr. N. lá estava aos gritos e, aparentemente, tudo estava normal!
Levamos todos quanto conseguimos e lá fomos, todos juntos pelos túneis para a bonita igreja do Telhal... É bonito ver os utentes a caminhar pelos tuneis em passo acelarado para irem para a Missa. Eles (e nós não porquê?) fazem da Missa uma verdadeira festa, um acontecimento importante...


A Eucaristia é tão diferente nesta igreja! Primeiro chegamos, "arrumamos" as cadeiras ao máximo e, fomos convidados a fazer a Oração dos Fieis, "todos estamos habituados a fazer, por isso vai qualquer um.". A B. ofereceu-se e fê-lo como eu nunca a havia visto fazer: muito bem mesmo!
A missa foi acontecendo normalmente, o salmo era bonito e foi maravilhosamente cantado... O ambiente era tão bom, apesar da responsabilidade e da presença de tantos utentes. Fiquei com o Deodato a meu lado, claro!, passou o tempo todo aos abraços e aos beijos nas minhas mãos, de vez em quando mandava-o falar baixo, outras vezes pedia-lhe para não se chatear quando mais alguém me cumprimentava... Ele é um querido! Mas as atenções tinham que se repartir com os restantes utentes que também necessitavam de alguma atenção, com o Sr. R. a querer fugir... E foram muitas as vezes que fixei o olhar nos Jovens voluntários que conduzi até aquele local. Um grupo de há tantos anos, com tantas qualidades e estavam ali a ajudar o outros, entregando-se à hospitalidade de um modo tão belo que me enchia o coração de amor. Os olhinhos e os sorrisos deles mostravam a felicidade que eles próprios sentiam. E que orgulho bom...
Entretanto, algo de inesperado aconteceu, o E. desfez-se em lágrimas... Todos os que estavam próximos tentaram ajudar, confortar... Até os utentes! O Deodato estava tão preocupado... Naquele momento, naquela igreja onde também eu já havia chorado, senti verdadeiramente a presença de Deus! Fiquei com o coração pequenino pois Deus manifestava-se ali, no inesperado, no meio dos doentes, nas coisas pequeninas da vida... Obrigada E. por teres ido!!!
Depois da missa, voltamos às unidades para levar os utentes e tivemos um bom pedaço de tempo para descansar. Estávamos todos cansados! Mas após o almoço, já não havia cansaço, havia trabalho nas unidades e fomos de novo ajudar nos almoços. Desta vez tudo era tão mais fácil, mais rápido (e aqui é impossível não me lembrar do Sr. L. que sugava a comida à velocidade da luz!) e o ambiente muito mais amigável... Sentiamo-nos em casa!!!
Enquanto fui levar o Sr. A. ao quarto para ele fazer uma sesta, a B. a I. e a C. assistiram a uma queda brutal do A.! Pobre A. que nem o capacete lhe valeu, mais um pouco de sangue, um penso e o susto que ficou... Já todas nos preocupávamos com eles!
Depois fomos com o Sr. R., finalmente beber café, "um carioca". Passou o fim-de-semana todo a pedir, depois lá percebemos que só pode beber dia-sim-dia-não. Deviam ver a felicidade dele quando lhe coloquei o café à frente!!! Que bonito... :)
Mas antes fizemos o caminho a conversar os dois, queria que eu namorasse com ele... A conversa teve pouco sentido, mas brinquei com ele e acho que percebeu que eu não me importava de ser sua neta, não sua noiva! Fomos passando por outras unidades, levamos mais utentes e a hora do café foi tão gira. Estávamos todos juntos. Como verdadeiros amigos, num café! Nós, os utentes e o Fernando...
O B. (um utente) veio falar-nos, pediu beijinhos e estava tão calmo que causava estranheza. Depois conhecemos um utente de 19 anos que dançava como ninguém da mesa e que falava de música, como eu não consigo falar! As minhas meninas estavam impressionadas... e os seus sorrisos de felicidades eram gigantes, mesmo! Já quase de saída, olhei para o lado e vi um Sr. (cujo o nome não me recordo) que escreve poemas. Disse às meninas para falarem com ele, para lhe pedirem para lhes ler um poema... Claro que a resposta foi super positiva e elas ficaram sem palavras. Bateram palmas, elogiaram, sorriram e se pudessem tinham lá ficado com ele. Como agradecimento, ele ofereceu-lhes o poema "Tremeliques" e elas não podiam ter ficado mais felizes... Vinham fascinadas!


Depois fomos despedir-nos às unidades, as despedidas são sempre difíceis, mas ali são diferentes! Não temos a certeza de quando nos voltamos a encontrar, se eles se vão lembrar de nós, se ainda lá permanecem quando regressarmos, se vão sentir saudades...
O Sr. Z voltou a receber-nos em seu quarto e estava, de novo, como o havíamos conhecido: simpático, meigo... Um querido... Um cavalheiro... Também passei pelo quarto do Sr. R. e brinquei de novo com ele, dei-lhe um beijinho. Tive pena do Sr. A estar a dormir, também gostava de lhe dizer adeus e de lhe dar "dois, dois beijinhos". No fim dissemos todas adeus, sem receber uma única resposta!
O Deodato, que tinha vindo connosco desde o bar, mas nós não o deixamos entrar na unidade, continuava à porta à nossa espera ("oh que querido!" - exclama a I.). Ele fez questão de nos levar até à casa onde estávamos. Sabia que estavamos de partida... Tiramos mais umas fotos pelo caminho (acho que ainda não referi, mas ele é "doido" por tirar fotos) e deixamo-lo de novo à porta:

 - Adeus Deodato!
 - Adeus amiga!

Era tempo de arrumar tudo e de avaliar o encontro, ou será que devo dizer, os muitos encontros que tivemos?

Continua... 

Sem comentários:

Enviar um comentário